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09 Março 2012

NÃO LEVO MEUS NETOS PARA VER ESSE FUTEBOL

Nota do editor: Aqui está um texto que eu gostaria de ter escrito. Não o escrevi, por falta de competência mesmo, mas o transcrevo com orgulho e prazer. Normalmente ilustro meus posts com fotos. Esta crônica, no entanto, dispensa fotografias. Ela própria é uma estonteante imagem que revela o estágio atual do futebol brasileiro. Assim, o espaço que seria ocupado com as ilustrações será utilizado para identificar o autor do texto que você vai ler. Um golaço! Um gol de placa!

Ignácio de Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 |

“Sei que o mundo mudou e, se querem minha opinião, ficou chato. Sei que o futebol mudou e se posso opinar, ficou muito chato. Não sou cronista esportivo, nunca fui. Também não sou daqueles que olham um jogo e ficam sabendo que os zagueiros deveriam avançar, que a tática usada foi 4.3.3 ou 5. 2.4 ou 1.9. 1. Vou ao campo ver a bola correr, ver dribles, defesas, gols, lançamentos, passes, grande jogadas, beleza. Quando leio ou ouço os comentaristas descreverem as partidas, fico com a sensação de que vi outro jogo e me sinto humilhado pela minha falta de conhecimentos. Será que por causa de minha ignorância estou achando tudo entediante, monótono, aborrecido, rotineiro? Ou o futebol definhou?

Eu ficava abismado quando, décadas atrás, ouvia ou lia que Tostão jogava esplendidamente sem bola. O que é jogar sem bola? Correr? Enganar o adversário? Fazer que vai, mas não vai e o seu marcador fica com cara de bobo? Humildemente tentei ler sobre técnicas, táticas, tentei olhar o jogo com sumidades, especialistas e confesso meu fracasso.

Tudo o que sei é que os jogos estão chatos, sem emoção, grandes lances, algo que me leve a aplaudir de pé. Não mexem mais comigo. Não fico ansioso para ir ao estádio. Neste campeonato paulista não entendo quando as torcidas se rejubilam com uma goleada de 5 ou de 6. Sobre qual adversário? Sobre times que não se mantêm nas pernas. Há um mundo de times jogando. Para quê? Que futebol exibem que justifique o sacrifício de comprar um ingresso, enfrentar fila (se bem que há muito não há filas), ficar na arquibancada ao sol de verão?

Vale algum sacrifício ir ver o Adriano, o Valdivia, o Luís Fabiano, o Lucas, e outros celebrados em campo? Por Deus! Por mais que procure, e procurei até em livros de filosofia, de física quântica, de lógica e, vejam só, até em teologia, e juro que não entendi por que se contrata a peso de ouro certos "craques". Por que meu time foi buscar esse imperador? Qual é o império dele? Não o de Júlio César, nem o de Alexandre, nem o de Gêngis Khan. Pagam a esse moço a quantia de R$ 400 mil para quê? Quantos jogos ele jogou? Com esses 400 mil poderíamos acertar a minha Ferroviária lá em Araraquara, à qual permaneço fiel, ainda que a veja flácida, sem músculos, sofrendo de Alzheimer, sem forças, como a maioria dos times do interior.

E esse Corinthians líder que agora é humilhado por todos que brincam, zoam, gozam com suas goleadas "arrasadoras" de 1 x 0? Acabou o orgulho, o destemor, o querer dar espetáculo. Sabe por que não dão espetáculo? Porque não têm talento. O futebol que já foi Cirque Du Soleil hoje é um barracão coberto por lona podre, furada. Qualquer um que entre em campo e passe o pé sobre a bola três vezes é um craque procurado por empresários, agentes, assessores, treinadores, dirigentes, e um mundo de gente que quer fazer dinheiro.

Sei que o tempo mudou, mas como esquecer a ânsia com que as populações do interior esperavam os jogos com os grandes? Havia caravanas que se deslocavam de uma cidade para outra e enchiam os (verdade que pequenos) estádios. Via-se o Corinthians, o Palmeiras, o São Paulo, o Santos, a Portuguesa, duas vezes ao ano. No turno e no retorno. E bastava. Agora se vê todos os dias. Se vê pela televisão, se vê plays e replays, se grava e se vê. Ficou igual a mulher nua em revista, em filmes, em novelas. Tudo que é demais satura. Banalizaram o futebol, assim como banalizaram a nudez, a sensualidade. Está chato, insosso. Digam: qual foi o grande jogo, a partida eletrizante deste capenga, chocho campeonato paulista?

Os técnicos são as grandes estrelas. Só que se juntarmos todos em campo, orientando uma partida, não darão a estatura de um Guardiola. Pegue o dedo do Scolari, o joelho do Mano Meneses, a boca do Leão, a arrogância do Luxemburgo, a apatia do Tite, a mudez do Muricy e tentem formar um técnico Frankenstein (este é para quem conhece literatura e cinema, tem certa cultura). Esse técnico não ganhará de ninguém. Está aí a seleção brasileira, inglória, sem provocar orgulho, sem nos fazer bater no peito. Batemos, sim, de raiva.

Sinto, não levei meus netos a um só jogo. Nem vou levar. Não tem por quê. Não quero deformá-los. Adoraria que crescessem dizendo: meu avô me mostrou a beleza do futebol! Não darei esse legado a Pedro, Lucas e Felipe, infelizmente. Ver o futebol que está aí é o mesmo que assistir ao BBB, A Fazenda, Mulheres Ricas, Zorra Total e pensar que se está vendo televisão. Nem esse campeonato é futebol nem esses programas e muitos outros são televisão pelo baixo nível, pela indigência, ausência de talentos, categoria, inteligência. São arremedos. E basta.”

27 Dezembro 2011

MUIBO CURY. A ESTRELA NÃO SE APAGOU – (ATUALIZAÇÃO)

Nota do editor: Na publicação original, ficou faltando o áudio de poemas declamados por Muibo Cury. Agora, no final desta postagem, você pode ouvir três clássicos da modalidade, na voz desse grande artista popular.

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A Ciência nos ensina que o brilho de uma estrela pode ser visto depois de o corpo celeste já não mais existir. Estrelas de primeira grandeza continuam a brilhar, anos a fio, embora já não estejam em seu lugar de origem. Há, naturalmente, fatores específicos que explicam esse aspecto singular dos astros. Não vou me deter em detalhes dessa natureza, eis que nosso objetivo não é didático-científico, mas puramente sentimental.

O que nos move a escrever este post pode ser chamado simplesmente de saudade. Saudade é um verbete específico e que só existe, tal como o interpretamos, na língua portuguesa; vou mais longe e digo que a saudade do brasileiro é, sem dúvida, diferente até da saudade de nossos irmãos lusitanos. Saudade é algo que nos marca a alma, indelevelmente, para todo o sempre.

Muibo Cesar Cury é uma dessas marcas eternas. Tendo partido há dois anos, completados neste dia 26 de dezembro, deixou lembranças tão marcantes como a luz intensa das estrelas. Assim, ainda “brilha” radiante no céu de nossa lembrança. E como faz um certo tempo que não tenho postado nada neste blog, decidi dedicar este espaço à memoria do saudoso amigo. Amigo que poderia ter sido mais próximo, mas a vida sabe o que faz. 

Se você não conheceu Muibo e quer saber mais sobre ele, clique aqui e aqui.

Além do talento musical, o saudoso companheiro era também dublador de reconhecida competência e grande versatilidade. Há pouco tempo, Karina, filha de Muibo, nos mandou um link em que é possível assistir a um trecho do antigo programa Muppet Show, em que o pai dubla o ursinho Fozzie, um dos personagens preferidos dele. Ao final da exibição, você verá vários outros trechos de vídeos dublados por Muibo. Aproveite e curta cada um.

Para marcar a passagem de dois anos de ausência de Muibo Cury, nesta segunda-feira, dia 26, foi oficiada uma missa, em caráter familiar, na Paróquia Santa Maria Madalena e Miguel Arcanjo, na Vila Madalena, São Paulo, capital. Muibo_2_anos

Karina nos enviou também alguns poemas declamados pelo saudoso pai.  Fizemos esta postagem, inicialmente, sem o áudio da declamação, devido a um problema técnico. Agora, finalmente solucionada a falha, quero dividir com você três poemas do CD que recebi de Karina. Dono de grande sensibilidade, Muibo empresta um colorido especial ao trabalho.

Ouça, primeiro, O Presente de Natal. Uma história comovente, com a simplicidade e a emoção do homem do campo.

Na sequência, uma lembrança pungente da infância; daquelas que nunca mais se esquece. Uma revelação inusitada sobre Papai Noel. Muibo era, mesmo, um craque. Ouça.

 

Finalmente, a terceira declamação fala de um amor puro, intenso e profundo entre um casal apaixonado, cuja história ganha o realce do imenso talento de Muibo. Amor tão grande merecia esta exaltação. Ouça o relato sentido e tocante de A Capelinha do Arraiá.

Muibo Cesar Cury, músico, radialista, locutor, cantor, compositor, ator, dublador, entre outros talentos inatos, era astro de primeira grandeza. Tal como as estrelas, que não se apagam no céu após a extinção do corpo celeste, continua a brilhar. E assim será.

Imagens: Muibo Cesar Cury 1 – link / Muibo Cesar Cury 2 – link  

14 Dezembro 2011

NOSSOS INSEGUROS VEÍCULOS

colisao Simplesmente de arrepiar as conclusões do teste de avaliação da segurança dos automóveis populares mais vendidos no Brasil. Constata-se que, na maioria deles, batidas a velocidades moderadas significam alto risco de morte para motoristas e seus acompanhantes, pois esses veículos não possuem as bolsas infláveis (air bags) e suas cabines têm estrutura deficiente.

Tecnicamente, numa escala de um a cinco, sete modelos básicos das principais montadoras em operação no Brasil receberam a nota mais baixa. Trocando em miúdos: nossos veículos são verdadeiras armadilhas sobre rodas... 

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil registra, em média, por ano, 19 mortes no trânsito para cada 100 mil habitantes. É um índice quatro vezes maior do que o detectado na Europa, de cerca de 5 mortes por 100 mil habitantes por ano.

Vários são os fatores que explicam o alto número de acidentes de trânsito registrados no País, entre os quais, a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas. A má qualidade das pistas e a precária sinalização também são fatores que levam a terríveis desastres, principalmente nas estradas.

Já o alto índice de letalidade tem muito a ver com a má qualidade dos veículos no que se refere à segurança das pessoas que os utilizam. Aí está uma clara conclusão dos resultados dos testes dos veículos novos fabricados e vendidos na América Latina – onde o índice de  acidentes  com  mortes  é  o  mais  alto  do  mundo - realizados pelo braço latino da New Car Assessment Programme (NCAP).

Os testes de impacto a média velocidade (64 quilômetros por hora) contra uma barreira deformável, que simulam uma colisão com outro veículo, mostraram que os veículos vendidos na região são frágeis, não dispõem de itens hoje essenciais em outros países para proteger as pessoas, cujas vidas, por isso, são colocadas em risco.

Esses carros estão atrasados 20 anos em relação aos modelos comercializados na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo. A NCAP é uma organização apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Federação Internacional de Automóveis (FIA) que realiza testes independentes para alertar os consumidores e os governos sobre a segurança dos modelos comercializados no país e orientar os fabricantes, desde que estes estejam dispostos a receber orientações desse tipo.

Aqui no Brasil, eles resistem. Já no ano passado, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos) disse que os veículos aqui produzidos atendem às especificações legais e, por isso, nada tinham a comentar sobre os resultados dos testes da NCAP. Este ano, repetiram a resposta. Realmente, a despeito de colocarem em risco a vida de seus usuários, os veículos comercializados no Brasil respeitam as regras do governo.

Episódio sintomático ocorreu em setembro, com a escandalosa proteção dada  às  montadoras, mediante  a  imposição  de  alíquota  de  30% do  Imposto  sobre Produtos Industrializados (IPI) aos veículos importados fora do Mercosul e do México.

Assim, impõem preços bem altos – mesmo descontados os impostos, que são muito pesados, os carros brasileiros chegam a custar o dobro do modelo equivalente vendido nos Estados Unidos – e amealham  grandes lucros.

E há uma importante e gritante ressalva: veículos produzidos aqui para exportação, acatam todas as exigências do exterior. E são negociados com mais de 140 itens de segurança. E aí vale a pergunta inoportuna e indigesta: por quê os estrangeiros podem andar em veículos mais seguros para suas vidas e aqui nós somos obrigados a correr riscos diários, em “carroças”, como já foi assinalado por um político?

carroçaFaltam governo e muita vergonha na cara para que nossos mais elementares direitos de consumidor sejam reconhecidos. Pelo menos isso!

Imagens: veículo acidentado – link / choque carro x caminhão – link / teste de impacto – link / linha de montagem – link / Anfavea – link / IPI – link / carroça - link

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