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20 de janeiro de 2013

ZZP-2 – O TESTE DE AFERIÇÃO DE FREQUÊNCIAS NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS

chamando_zzp2

Estava pensando longe, sem me fixar em nada especialmente. Num estalo, me veio à lembrança a época em que as emissoras de rádio precisavam fazer um teste de aferição de frequência, de tempos em tempos. Imediatamente me lembrei do ZZP-2.

— “Poxa!” —exclamei, com a voz interior— “Como é que fui me lembrar disso agora?”

São tantos os momentos vividos e compartilhados ao longo dos anos, que algumas passagens ficam sepultadas sob montanhas de imagens acumuladas pelo tempo.

Às vezes, me pego revivendo fatos que já julgava esquecidos. E me surpreendo com a riqueza de detalhes que vão brotando durante a recordação. Em alguns casos, tão vivos como se estivessem acontecendo agora mesmo. No entanto, ficaram anos empilhados num canto escondido da memória. É bastante uma palavra ou um pensamento, para que as lembranças jorrem como cascata formada por águas de aluvião.

Pois foi exatamente assim que brotou, do passado, a expressão ZZP-2.

O que é isso?

Eu explico: há muitos anos, as emissoras precisavam ter a frequência aferida pelo órgão controlador responsável por manter cada rádio operando na posição que lhe cabia no dial. Nem se cogitavam rádios piratas. O propósito era manter a ordem e a organização das “estações”.

De seis em seis meses, mas em alguns casos o intervalo chegava a ser  maior, havia um teste para verificar se o transmissor estava calibrado. O teste consistia em chamar o controlador, no ar, até que o sinal da rádio fosse captado em São Paulo, capital.  

Era o ZZP-2, “Centro de Controle de Emissões Radiofônicas e Radielétricas”, de São Paulo, divisão subordinada à “Empresa de Correios e Telégrafos”, que supervisionava o serviço de transmissão radiofônica, antes da “Embratel”, hoje “Anatel”.

Na data marcada para o teste, após o encerramento das transmissões normais, geralmente à meia-noite, dava-se um tempo de cinco a dez minutos e um locutor fazia uma chamada no ar. Presumia-se que os ouvintes não estariam sintonizando uma rádio cuja programação já se havia encerrado.

Eu mesmo cheguei a participar disso, nos idos de 1968, 1969 e 1970, quando trabalhava na Rádio Vanguarda, de Sorocaba. O proprietário,  Salomão Pavlovsky, já falecido (direita), meu primeiro patrão, comparecia aos estúdios, na rua Dr. Braguinha, 79 (esquina com rua Maylasky) para acompanhar o teste.

Geralmente havia um texto a ser lido, mais ou menos assim:

“Alô, ZZP-2… rádio Vanguarda, de Sorocaba, chamando para aferição de frequência. Responda, ZZP-2. Aqui, ZYI-8, onda média de 192,3 metros, operando em 1560 quilociclos, chamando para aferição. Na escuta, ZZP-2? Confirme o sinal da rádio Vanguarda.”

O texto sofria pequenas variações, ao sabor da imaginação ou do entusiasmo do locutor que estivesse escalado para o teste, mas basicamente era isso. O sorocabano mais atento pode estranhar a frequência, em 1560 KHZ, mas era essa na época dos fatos aqui narrados. Anos mais tarde, Salomão conseguiu a troca, no dial, para os 1210 atuais. O prefixo, ZYI-8, não sei se permanece o mesmo.

Retomando, para o sucesso da empreitada o órgão fiscalizador determinava que todas as emissoras autorizadas a operar na mesma frequência ou muito próximo dela, em outras localidades, ficassem fora do ar durante o período de teste.  

emissoras_zzp2Naquele tempo, a maioria encerrava os trabalhos por volta de meia-noite, o que facilitava tudo. Poucas iam até uma hora, já no início da madrugada. A exceção ficava à cargo das potentes emissoras dos grandes centros urbanos. Essas, operavam ininterruptamente.

Se estivesse tudo em ordem o teste era concluído poucos minutos. Caso contrário, o ZZP-2 passava instruções, por telefone, para que fossem feitos ajustes no cristal que mantinha a frequência da rádio no lugar exato.

Na hipótese de haver grave irregularidade, a rádio poderia ter o transmissor lacrado e ficar fora do ar até que fosse feita a correção. Por isso, o teste era levado a sério. Geralmente, não havia problema.

Em Sorocaba, contava-se uma história, nascida, segundo se dizia, de um desses testes.

Ouvintes desinformados, acabaram sintonizando a emissora depois do encerramento das transmissões e ouviram os apelos do locutor ao ZZP-2. Acreditando tratar-se de uma tentativa da emissora para orientar alguma aeronave perdida sobre o céu da cidade, acabaram alertando amigos, vizinhos e conhecidos. Todos ligaram o rádio e se convenceram que era mesmo um avião em perigo, cujo piloto estava desorientado.  pouso_emergencia

Na base do boca a boca, quem tinha automóvel foi para o aeroporto local, na Vila Barão. Localizado em região isolada, sem iluminação, pista de terra e pouca ou nenhuma vigilância, não teria sido difícil para os motoristas se alinharem ao longo da pista precária, com faróis acesos para sinalizar um provável pouso que o “piloto” pudesse fazer.

Até que a confusão chegasse ao conhecimento da rádio e fosse desfeita, dezenas de veículos teriam ido ao aeroporto em solidariedade ao desesperado aviador.”

Essa era a história. No ar, durante os testes, cheguei a me lembrar dela e a desejar que pudesse acontecer novamente. No fundo, eu bem que gostaria de ver o aeroporto da Vila Barão cercado por automóveis de moradores da cidade. Fui movido por um espírito de aventura evocado, certamente, pelos fatos que contei acima. Seria, eu pensava, um feito e tanto para o locutor que conseguisse repetir a comoção popular.

Na verdade, nunca encontrei alguém na cidade que tivesse participado dessa passagem. Pelo contrário, já em São Paulo, ouvi e li relatos idênticos que teriam se passado em outros locais do Brasil.

Hoje, encontrei, como você vê abaixo, um fato verídico que faz parte da história do Aeroporto Internacional de Viracopos, de Campinas, SP, cujo parágrafo pode ser lido em um dos links apontados abaixo.

Por essa versão, tudo aconteceu entre 1946 e 1950, bem antes da época em que situo meu relato, final dos anos 1960.

É bem provável que esta situação possa ter inspirado a “lenda” sorocabana. Ou não. O rádio sempre foi território livre da imaginação. Nada mais natural do que imaginar.

viracopos  *** *** ***

  • Pesquisando pelo termo, encontrei uma referência ao site catarinense “Caros Ouvintes” que costumo ler, em que confio. Veja o artigo de Carlos Braga Mueller, publicado em agosto de 2008, quatro anos antes de eu ter descoberto o site, em 2012. Leia, também, os comentários que acompanham o post. Várias informações curiosas foram resgatadas por leitores e colegas contemporâneos da época do ZZP-2. Em especial, a radioamadora Carla Cascaes, cujo depoimento ajuda a formar a imagem de como era o rádio de ontem. Aqui.
  • A seguir, o link da página do Aeroporto Internacional de Viracopos, Campinas/SP, onde encontrei história semelhante à que circulava como se tivesse acontecido em Sorocaba, também no estado de São Paulo. Clique aqui.

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Imagens: Charge ZZP2 – link / Antigo transmissor valvulado Collins 20V-3 – link / Salomão Pavlovsky – link / Torres com sinais na mesma frequência – link / Pouso noturno (base para montagem) – link / Recorte de página – link /