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22 de agosto de 2013

RÁDIO: O REI DA IMAGINAÇÃO NÃO PODE CAIR NO ESQUECIMENTO

Dias atrás, recebi de Roberto Gasparetti, um amigo da rede que mora em São Paulo, duas fotos de rádios antigos. A foto da esquerda, mostra uma cena clássica das famílias do início do século XX, reunida em torno do rádio. Esse receptor foi fabricado há pelo menos 70 anos.

radios_antigosO modelo da direita, em que a moça ajusta a sintonia, é mais novo, mas, talvez tenha entre 50 e 60 anos. O rádio ocupava lugar de destaque, na casa, pois a televisão ainda não havia conquistado a popularidade e a audiência que viriam invadir o reinado intocável do rádio, até então.

Vendo as fotos me lembrei de um primo de Sorocaba/SP, minha terra natal, cujo hobby sempre foi colecionar rádios antigos. Na última vez que o vi, há pouco menos de dois anos, Daniel Mattucci me falou sobre o museu do rádio que ele vinha organizando a duras penas.

Sem apoio institucional de nenhum órgão público ou da iniciativa privada, estava se tornando cada vez mais difícil manter o acervo. As dificuldades, aliás, não se resumiam à manutenção apenas. Sem o respaldo financeiro necessário Daniel percorria, por conta própria e quando possível, cidades de todo o território nacional e até internacional, em busca de novos itens para a coleção.

Veja, por exemplo, este rádio. O próprio Daniel o descreve:

image (1)

“Este rádio, com antena em forma de quadro, é da marca Vitus adquirido em Paris em 03/11/1926 por um sorocabano ilustre. Um pesquisador local examinou, no correio, livros de registro de rádios, obrigatório nessa década e nas décadas seguintes, e consta que o aparelho da foto foi o décimo a chegar na cidade (tenho a nota fiscal de compra).”

Outro exemplo das preciosidades que o acervo particular de Daniel Mattucci contém é esta joia. Observe o estado de conservação, impecável. E funciona como novo.

image

Daniel o descreve: “ O rádio da foto é da marca VICTOR, modelo R-35, fabricado em 1929. Mede 97 cm de altura, 63,5 cm de largura e 39 cm de fundo. Foi  adquirido em Porto Feliz-SP. Não funcionava, mas estava intacto e com o valvulamento novo. Seu problema era o rompimento da bobina móvel do alto-falante. Alguns colecionadores sustentam que este modelo começou a ser produzido em 1928. Nessa época, a Victor ainda não tinha "contraído matrimônio" com a RCA, quando então passou a chamar-se * “RCA Victor”. Possui dois chassis e foi projetado apenas para ondas médias, sem vitrola. Mesmo parado, paguei por ele R$2.000,00. Hoje, funciona como novo. É dos que não abrirei mão.”

Chega uma hora em que o prazer de colecionar esbarra no bolso e, então, é inevitável botar o pé no freio. E foi o que aconteceu, infelizmente. Logo após ter recebido as fotos de Gasparetti pensei em falar com o primo e fazer um post sobre a coleção dele. O contato se efetivou neste 16 de agosto, um dia após o aniversário de Sorocaba.

Daniel me contou que está desistindo do museu. Cansado de fazer tudo sozinho, já se desfez de 120 aparelhos, os mais comuns. Comuns sob o ponto de vista do colecionismo, é claro, mas ainda muito atraentes para o público e importantes para a preservação da memória do rádio.

O fato é que dos mais de 300 aparelhos acumulados ao longo dos anos em que Daniel se dedicou à coleção, restam cerca de 180 unidades. Pode parecer pouco, mas, para você ter uma ideia, o museu do rádio em Dallas, no Texas, Estados Unidos, tem algo em torno de 140 aparelhos antigos. Ressalte-se que, lá, o museu é mantido por patrocinadores. Reitero que Daniel Mattucci constituiu o acervo dele com recursos próprios. Daí, ter conseguido agregar mais de trezentas peças à coleção é um feito notável. Notável e digno de elogios, mas insuficiente para sensibilizar algum patrocinador. Neste país, em que a memória histórica não tem nenhum valor, era de se esperar o desfecho.

Um final melancólico para a iniciativa de um cidadão apaixonado por rádio, embora não seja radialista e nem, jamais, tenha se sentido atraído pela profissão em si. O objeto de seu desejo é o rádio, nos mais variados modelos. A coleção recebe, atualmente, apenas os cuidados de rotina como tirar o pó das prateleiras e evitar que o tempo, inexorável, destrua o que restou dos aparelhos que já foram o símbolo máximo desse fantástico meio de comunicação.

image (2)Autoridades governamentais —em qualquer uma das três esferas— e empresários nacionais deveriam se envergonhar, pelo descaso. A preservação da memória do rádio perde-se lentamente, ano após ano. É preciso reagir a essa letargia destrutiva.

O rádio não morreu e embora os catastrofistas de plantão garantam que o fim dessa mídia se aproxima, esta será apenas outra barreira a ser vencida pelo mais popular e dinâmico dos veículos de comunicação de massa. Imaginação e criatividade, no rádio, sempre foram a marca registrada que ajudaram a transpor barreiras. E nunca será diferente. daniel_mattucci

As novas mídias não acabarão com o rádio. Pelo contrário, serão utilizadas como complemento para seduzir, como sempre seduziram, o ouvinte em qualquer lugar do planeta. Seja através do sinal aberto, sintonizado pelas múltiplas formas de novos aparelhos, seja pela distribuição do sinal, em streaming, pela Internet.

O mundo não tem mais fronteiras e o rádio vai continuar levando a música, a notícia, a utilidade pública, a informação sobre artes, espetáculos e um sem número de atrações, sem dúvida. 

Daniel Mattucci me pediu que divulgasse o telefone (15) 3014-0647 e o e-mail jamaraly@ig.com.br através dos quais pessoas interessadas em adquirir alguma peça do acervo podem entrar em contato com ele. Eu lamento que o museu termine dessa forma, pois preferiria que a coleção fosse preservada, mas não me cabe decidir pelo colecionador o que deve ser feito.

O que posso e faço, sem pestanejar, é um apelo ao bom senso de governos e empresariado: está mais do que na hora de haver alguma mobilização com o propósito de salvar o rei da imaginação do triste destino do esquecimento.

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Veja mais sobre o museu de Daniel Mattucci, nesta reportagem de José Antonio Rosa, para o Caderno de Domingo, do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, publicada em 16 de fevereiro deste ano. Clique aqui

* Nota do redator: A RCA Victor foi constituída em 1929, com a compra da Victor Talking Machine Company, fundada em 1900. O filme abaixo data dessa época e mostra como surgiu o logotipo da nova empresa. Durante a apresentação de um gramofone, os diretores da empresa observaram a reação do cão ao som produzido pelo aparelho e tiveram a ideia da nova marca, que ficou mundialmente famosa. A qualidade das imagens não é das melhores, mas, como documento histórico, é perfeita. São apenas 9 segundos de um filme mudo.