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19 de setembro de 2013

ATÉ QUE PONTO VAI O EMPREGO DO POPULAR NA LOCUÇÃO PROFISSIONAL

Vi, no Facebook, um comentário do amigo locutor José Maria Della Guardia Scachetti, o super Zé Maria, noticiarista da rádio Tupi, de São Paulo. No post, ele dizia ter ouvido Milton Neves, no final da jornada esportiva desta quarta-feira, 18 de setembro, apresentando o “Terceiro Tempo”, no rádio. Basicamente, é o mesmo programa homônimo apresentado na tevê Band, depois dos jogos de futebol.

 

Zé Maria fez referência ao fato de Milton Neves dizer o nome da rádio, Bandeirantes, “comendo” a vogal “I” do ditongo, fazendo com que a palavra soasse “Banderantes”. Trata-se de um fenômeno observado na fala pela população, que estudiosos da língua classificam de monotongação, ou seja, a transformação de ditongos em monotongos.  

 

Isso ocorre em palavras como “peixe”, “feixe”, “beira”, “cadeira”, “ouro”, “couro” que ouvimos, costumeiramente, sendo pronunciadas como “pexe”, “fexe”, “bera”, “cadera”, “oro”, “coro” e uma infinidade de outras, semelhantes. De onde se conclui que a língua escrita é uma e a falada é outra. Claro que um locutor deve optar pela norma culta, mas o linguajar do povo, em si mesmo, tem o seu valor e faz com que o idioma seja, cada vez mais, dinâmico.  

 

O mineiro Milton Neves, faz tempo, vem se caracterizando como homem comum, modesto, até como forma de justificar a origem humilde do “rei do merchand”, o que não deixa de ser uma estratégia de marketing. No fundo, Milton é um sujeito simples, apesar de ter ficado milionário com o merchadising. O “pacote” das mineirices do apresentador inclui expressões populares antigas, sotaques acaipirados, piadas e “mancadas” que, invariavelmente, são denunciadas no ar por Mauro Beting, escada natural de Milton Neves. O povo gosta dele assim. Claro que não falo em nome dos que o detestam, mas esse é outro departamento. Eu não o recrimino, pelo contrário.

 

Além da tendência de “engolir” uma vogal, como já foi dito acima, a supressão também acontece em outra circunstância. É a chamada elisão, que resulta do encontro de duas palavras, em que uma vogal átona final da primeira palavra se encontra com outra vogal ou “H” no início da segunda.   

 

Dou um exemplo clássico. Na primeira estrofe do poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu, está escrito:

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

 

Ao declamar o segundo verso, por exemplo, todos dizem “daurora da minha vida”. Uma das vogais, “A”, desaparece. É a elisão, frequentemente utilizada na declamação poética. Outro caso, bastante comum é a mudança fonética com a eliminação do final vocálico de uma palavra fazendo a fusão com a palavra seguinte, emitindo-se as duas de uma só vez. Como exemplos, temos copo d’água (copo de água), pau-d’alho (pau-de-alho), linha d’horizonte (linha do horizonte), Santa Bárbara D’Oeste (Santa Bárbara do Oeste), entre outros.

 

Não sou filólogo nem estudioso da nossa língua, mas, no exercício da locução, sempre busquei um meio termo entre o correto e o popular. Sou dos que acreditam que a virtude está no meio. Ainda tropeço na escrita, em que a palavra ganha contorno e força maiores e incomoda aos olhos, quando lida, muito mais que aos ouvidos, quando pronunciada de maneira popular. Veja a frase: “E aí, mermão?” O termo, falado, é inteiramente assimilável. Escrito, confunde.

 

Continuando com o tema que originou sua “bronca”, Zé, o maior locutor atual do país sempre falou "Banerantes". Nunca reparou? Claro que não vou citar o nome do colega, mas você o conhece até melhor do que eu. E, repito, é o melhor locutor do país. Ele eliminava inteiramente o ditongo da palavra “Bandeirantes”, mas a fala fluía livre de trancos, límpida e clara sem denunciar ao ouvido a falha fonética.

 

Para você ver que também na chamada locução séria e “classuda” existe uma tendência natural de adotar a corruptela, forma corrompida de uma palavra pelo uso abusivo ou popular. Do ponto de visto técnico da emissão vocal não é correto, sem dúvida, mas entende-se quando o locutor profissional busca se aproximar da pronúncia popular, sem descuidar da fluência e da entonação que diferem a locução da fala do povo. O truque visa evitar que o locutor pareça esnobe ao ouvinte. Ser pernóstico nunca foi moda nem sintoma de popularidade.  

 

Para finalizar, meu amigo Zé Maria, esclareço que este post nasceu porque a questão que você levantou é, de fato, curiosa e me pareceu oportuno abordar o tema. Apenas isso. Até porque, estando fora do meio há tanto tempo, às vezes me assusto quando ouço algumas coisas no rádio e na televisão. E vou tocando o barco, pois, como diz o impagável José Simão, “nóis sofre, mas nóis goza”.

 

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Fotos: José Maria Della Guardia ScachettiMilton NevesCasimiro de AbreuEstudosTécnica vocalJosé Simão