CONTATOS, INCLUSIVE ASSESSORIAS DE IMPRENSA:
FALE CONOSCO!

Navegue à vontade

Na coluna à direita, logo abaixo das postagens preferidas do leitor, está o ZAPPING. Através dele você tem acesso direto às noticiais do dia, nacionais e internacionais, além de informações sobre quase tudo. ZAPPING. Uma central de notícias e entretenimento em que você escolhe o que quer.

21 de novembro de 2013

AVANÇO TECNOLÓGICO DO RÁDIO DECRETA O FIM DO LOCUTOR

radio_antigo

Pensando sobre o futuro do rádio, obrigatoriamente sou levado a buscar no passado razões que determinaram o presente. Só depois de comparar ontem e hoje é possível fazer uma projeção sobre o rádio de amanhã. Lembro-me que em 16 de dezembro de 1988 fui a Santos/SP prestigiar uma nova turma de radialistas formados pelo Senac, entre eles, um sobrinho, Nelson Lamarca, hoje também jornalista. Eu já trabalhara em Santos, entre 1972 e 1977.

Além de mim, compareceu o então presidente do sindicato da categoria, *Francisco de Campos Pacheco Neto, o Chiquinho. Nós dois dirigimos algumas palavras aos novatos. Chiquinho fez referência ao fato de que no rádio não existe apenas o locutor, o personagem que “aparece” para o público. O que o rádio transmite é resultado do trabalho de uma grande equipe, na maioria das vezes anônima. Ela é que dá sustentação ao profissional que está no ar. Nesse sentido o setor administrativo, como um todo, é fundamental. Pensando nisso, não pude deixar de notar que, hoje, mais ainda que em 1988, praticamente todos que entram no rádio acabam sendo locutores. E a razão nem mesmo está ligada ao ego, como se poderia imaginar.

Para não voltarmos ao tempo em que o rádio dispunha de grandes elencos de artistas de radionovelas, orquestras e cantores, vamos recuar somente até os anos 1970 para traçarmos um paralelo com os dias atuais. Naquela época, o rádio tinha até zelador da torre de transmissão. Via de regra, ele também ligava e desligava o equipamento, no caso das emissoras que não operavam 24 horas. Aquelas que transmitiam diuturnamente, além do responsável pelas instalações da torre, tinham operadores do transmissor em turnos diários. Hoje, com o crescimento maciço do FM e o sistema de transmissão que dispensa os radiantes em terrenos úmidos, a torre e o transmissor geralmente ficam no mesmo prédio da rádio. Não existem mais o zelador nem os operadores de transmissor. Quando é preciso desligar ou alterar o sistema de transmissão, o próprio locutor, que também é operador, faz a manobra. Isto, se a operação não for computadorizada. 

No prédio da emissora, as equipes eram numerosas. Na central técnica da rádio Bandeirantes, por exemplo, havia 27 profissionais. Eles trabalhavam em equipes de 7 operadores por turno —às vezes até mais— atendendo à demanda de repórteres, setoristas, correspondentes e outros profissionais que atuavam no campo (fora da emissora) e que precisavam entrar no ar, ao vivo, ou gravar seus boletins para determinados horários. Todo o material era equalizado antes de gravar e editado antes de ir ao ar. Um trabalho exaustivo e que exigia muita dedicação do pessoal, para não haver furo. A foto que ilustra este post, porém, não é da Bandeirantes, mas da rádio portuguesa “EN”. A central do Morumbi era praticamente o dobro desta. Atualmente, talvez tenha a metade, ou menos do que a da foto.

Além desse pessoal, havia motoristas, produtores, redatores, repórteres, coordenadores, programadores, discotecários, operadores da mesa, auxiliares de produção, auxiliares de coordenação, fiscais de estúdio e um “pelotão” de office boys que davam suporte às equipes encarregando-se do trânsito do material interno da emissora, abastecendo os estúdios durante os programas não só jornalísticos, inclusive os musicais.

Nas redações não existe mais a figura do redator apenas. Ele é, ao mesmo tempo, redator, editor (inclusive de áudio) e, não raras vezes, vai para o estúdio e fala também. Foram limados, por baixo, três postos de trabalho. São as virtudes multiplataformas, entende? Os estúdios para produção comercial e de chamadas eram disputados e lotados. Naturalmente, exigiam mão de obra especializada. Pelo menos três equipes, de três pessoas: o técnico de gravação, o técnico de edição (na base da gilete e do splice) e o auxiliar. Hoje, sentado diante do computador um só profissional edita chamadas e comerciais, num único turno.

Na parte esportiva, havia os narradores, comentaristas, repórteres, plantonistas, rádio-escutas (no jornalismo diário também), produtores, redatores e equipe de 13 técnicos voltados para o setor. Na foto, Fiori Gigliotti narra jogo no Morumbi. O uso do “off tube” afastou o narrador dos estádios, cortou custos e mão de obra. As emissoras que, ainda hoje, se dedicam ao esporte e jornalismo conjuntamente mantêm departamentos distintos, mas, exatamente por serem as que ainda empregam, ditam regras e salários. Sobrecarregados, os funcionários trabalham em dobro ou triplo e ganham menos. Não se pode esquecer que, hoje, 80% dos cargos jornalísticos, esporte incluso, são ocupados por prestadores de serviços, ou seja, são Pessoas Jurídicas. Dão nota fiscal no fim do mês. Podem ser desligados a qualquer momento, sem ônus para o empregador.

Se, antes, o “batalhão” era de quatrocentas pessoas ou mais cobrindo todos os turnos e setores de uma emissora, hoje o quadro não passa de 50 ou 60 profissionais. Estou sendo otimista, pois na maioria das emissoras musicais esse número talvez não chegue a 20, incluídos cargos administrativos. E olhe lá.

Os Djs, por exemplo, operam a mesa, são discotecários, programadores, coordenam redes, disparam breaks comerciais e o que for preciso. Com isto, lá se foram para o espaço mais alguns cargos antes ocupados por diferentes profissionais. Antes que você imagine o contrário, não sou contra a modernização do rádio. O que eu quero demonstrar é que, paradoxalmente, a evolução tecnológica está reduzindo o mercado de trabalho. Em tempos de versatilidade digital, o profissional trabalha para Rádio, TV e Internet simultaneamente. Se quiser entrar ou permanecer no mercado, é claro.

Já de algum tempo, o padrão de locução vem se modificando. Tudo em nome da naturalidade. “Pessoas falam como pessoas, não como locutores”, dizem os esfuziantes e moderninhos diretores artísticos com ares de quem acabou de descobrir a pólvora. Então, hoje, qualquer pessoa faz locução. Qualquer uma mesmo. E se o ouvinte aceita isso, ele é quem manda. Ao constatar essa realidade, não pude deixar de me lembrar do alerta de Chiquinho, há quase 25 anos. Hoje todos querem ser locutores porque não há mais cargos disponíveis.

Vai chegar o dia em que os locutores serão desnecessários numa emissora. Há muito eles perderam o traço mais característico da função, que era o de identificar um prefixo e fortalecer o elo com o ouvinte. Pelas vozes, você sabia qual era a rádio sintonizada. Isso acabou. Agora, o ouvinte não se importa com quem está no ar. Ele ouve o que quer e parte para outra, digamos assim. O elo da audiência cativa se rompeu e só se fala de audiência rotativa. Pelo jeito, mais importante que a anterior, pois em nome dessa rotatividade, o rádio torra, sem constrangimento, a paciência do ouvinte que se atreve a ficar em sintonia.

alo_alo

A mesma informação veiculada de manhã é repetida de tarde, de noite e, se abusar, até na madrugada seguinte. Novos tempos.

Em breve, uma voz sampleada e digitalizada nos mais diversos timbres vai “falar” com o ouvinte. Se é que haverá “ouvinte”. Nos termos que a gente conhece, pelo menos.

*** *** *** *** ***

*Identificado pelo Sindicato dos Radialistas de São Paulo/SP / Imagens: Rádio antigoTorre e casaRedatoresCentral TécnicaFiori GigliottiDJ no arElo partido - Montagem, Alguém aí?

Assessoria: Nelson Lamarca e Luciano Amaral