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26 de fevereiro de 2014

LER MAL RESULTA EM FALAR MAL. LOCUTORES E APRESENTADORES NEM DESCONFIAM DISSO

Faz algum tempo que um detalhe no rádio e na televisão tem me incomodado. No início, pensei que fosse implicância minha, mas, para não ser injusto, comecei a prestar atenção. Não é implicância, não: locutores e apresentadores de rádio e televisão estão ficando, a cada dia, piores na leitura. Parágrafos, pontos, vírgulas, dois pontos, apostos, parênteses, evocativos, interrogações e toda sinalização que determina o ritmo e a fluência de um texto estão sendo simplesmente ignorados. Tudo isso, sem falar na cantilena irritante de quem lê mal, tem desafiado a paciência do ouvinte e do telespectador. (Obrigado, Ivo Bueno Ferraz, pelo alerta quanto ao erro de concordância na frase sobre a sinalização do texto, já corrigido)

Leitura é uma arte que se desenvolve… lendo. Deve ser esta a razão para a nova maneira de ler da geração atual de profissionais de comunicação. Hoje, não é preciso ter boa voz nem dicção perfeita para assumir o microfone. Qualquer pessoa, literalmente, pode exercer a função de locutor. Não digo isto por ressentimento, apenas relato a realidade. É fato indiscutível e ponto.

Com o aumento, rápido, desordenado e até ilegal de emissoras—as rádios piratas—houve a necessidade imediata e crescente de mão de obra especializada, inexistente no mercado. A solução foi criar a mentalidade de que não é preciso “falar bem” para ser locutor. Decretou-se, então, a “naturalidade” como padrão desejável. Por naturalidade, pode-se entender tudo. Já ouvi, inclusive, locutores de língua presa. Roucos, afônicos, gagos e que tais nem dá para contar. Se alguém criticar o absurdo, lá vem a justificativa: “queremos gente com voz e jeito de gente. Nosso objetivo é a naturalidade.”

Contra essa mentalidade, não existe argumento. Qualquer dislalia vocal (mesmo as sérias) é logo catalogada como “natural da pessoa” e a crítica profissional assume ares de discriminação; censura à liberdade de expressão, entende? Uma inversão de valores sem sentido.

Dessa forma, instalou-se o “liberou geral” e os locutores de ofício foram perdendo espaço nos veículos de comunicação. A tática resultou na imediata redução de salário dos novatos e uma substancial economia no custo operacional das emissoras. No fundo, essa é a parte que mais interessa aos empresários do setor. O público teve que se adaptar aos novos tempos. Muitas pessoas foram, elas mesmas, experimentar “a sorte na latinha” (ou seja, foram tentadas a buscar emprego como “locutores”). Como o diferencial sempre é o talento e quem vai pagar o salário delas é o empregador, nada contra. Com a ressalva acima, sobre o achatamento salarial da categoria.

Ocorre que, atualmente, está ficando insuportável ouvir certos desempenhos vocais de gente despreparada (homens e mulheres) que, sequer, imagina o que seja boa leitura. É um tal de passar direto pela pontuação, “que vou te contar…” Esse despreparo não é privilégio de “paraquedistas”, pessoas sem aptidão, que buscam o novo nicho de mercado que a “naturalidade” ensejou. Tem acontecido com gente que cursou jornalismo ou fez curso profissionalizante, para obter o DRT de radialista.

Veja um exemplo, mínimo, durante um telejornal matutino. Use a imaginação, claro:

Apresentador diz “São oito horas a avenida Paulista tem trânsito congestionado a repórter ‘fulana’ está acompanhando muita confusão conta pra gente…”

Assim mesmo, sem pausa sequer para respirar. Não se sabe se a frase afirma, sugere ou pergunta. Tudo é dito em tom monocórdio, desprovido de inflexão, sem variação de tonalidade e outros detalhes que fazem a “melodia” da fala. E atenção, pois melodia não é a “cantilena” a que já me referi. Também é comum a “derrapada”, quando quem está lendo sai da “pista” (erra o texto). A maioria nem se dá ao trabalho de corrigir para tornar, pelo menos, inteligível o que acabou de ser dito.

Antes de você imaginar que pôr no ar gente desqualificada para a função seja uma tendência de pequenas emissoras, saiba que o “fenômeno” tem se reproduzido rapidamente em veículos da chamada grande mídia.

Escrever, ler e falar são atividades distintas embora, aparentemente, façam parte do mesmo pacote. É raro encontrarmos quem escreva, leia e fale bem simultaneamente. Respeitar e adequar as virtudes profissionais é dever do empregador sério, comprometido com a atividade-fim da empresa. É o mínimo de respeito, também, que se deve ao público.

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Imagens: Ao microfone / Demanda / A “latinha” / Trânsito na Paulista